Joinville, a maior cidade de Santa Catarina com cerca de 600 mil habitantes, alcançou em 2023 um feito que pouquíssimas cidades no mundo conseguiram: zerou o envio de resíduos sólidos para aterros sanitários. Todo o lixo gerado pela cidade é hoje reaproveitado — reciclado, compostado ou transformado em energia.
Um sistema integrado de coleta seletiva, compostagem, reciclagem e geração de energia a partir de resíduos, combinado com educação ambiental nas escolas e incentivos para redução na fonte.
Como chegaram lá
O processo levou 15 anos e começou com uma decisão política clara: Joinville não construiria mais aterros sanitários. A cidade tinha um aterro que estava chegando ao fim da vida útil, e a decisão foi não renová-lo — mas encontrar alternativas para cada tipo de resíduo.
O primeiro passo foi expandir a coleta seletiva. Hoje, 100% dos bairros de Joinville têm coleta seletiva porta a porta três vezes por semana. Os catadores de materiais recicláveis foram formalizados em cooperativas, com renda garantida e condições de trabalho dignas.
O segundo passo foi a compostagem. Joinville tem hoje 12 usinas de compostagem que processam resíduos orgânicos e produzem adubo que é vendido para agricultores da região. Os resíduos orgânicos representavam 40% do volume total de lixo — tirá-los do aterro foi um passo enorme.
"O segredo foi tratar cada tipo de resíduo como um recurso, não como um problema. Papel, plástico, vidro, metal, orgânicos — tudo tem um destino útil. O que vai para o aterro é o que sobra quando você não conseguiu encontrar esse destino."
— Eng. Paulo Silveira, diretor de gestão ambiental de Joinville
O que pode ser replicado
Joinville não é uma cidade pequena nem especialmente rica. É uma cidade industrial de porte médio, com desafios típicos de cidades brasileiras. O que a diferencia é a continuidade de política pública — o programa atravessou quatro gestões municipais de partidos diferentes — e o investimento consistente em infraestrutura e educação ambiental.
O modelo está sendo estudado por mais de 30 cidades brasileiras. A principal lição: é possível, mas exige planejamento de longo prazo e vontade política que sobreviva a mudanças de governo.