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Como Fortaleza reduziu em 40% os índices de violência em um bairro considerado irrecuperável

Por Ana Beatriz Fontes12 de junho de 2025
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O bairro Bom Jardim, em Fortaleza, transformado por políticas integradas. Foto: arquivo Alternativas

Em 2010, o bairro Bom Jardim, na zona oeste de Fortaleza, era frequentemente citado nas estatísticas de violência como um dos mais perigosos do Brasil. A taxa de homicídios chegava a 120 por 100 mil habitantes — mais de dez vezes a média nacional. Moradores viviam com medo. Serviços públicos funcionavam de forma precária. A sensação era de abandono.

Quinze anos depois, o Bom Jardim é citado como caso de referência em segurança pública integrada. A taxa de homicídios caiu 40%. Novos equipamentos públicos foram inaugurados. A economia local cresceu. O que aconteceu?

A solução em resumo

Uma combinação de presença do Estado em múltiplas frentes (segurança, educação, saúde, cultura, geração de renda), participação comunitária ativa e continuidade de política pública por mais de uma gestão municipal.

O diagnóstico

O ponto de partida foi reconhecer que a violência no Bom Jardim não era um problema de segurança pública isolado. Era o resultado de décadas de exclusão social, ausência do Estado, desemprego, falta de oportunidades para jovens e ausência de espaços de convivência e cultura.

Tratar a violência apenas com mais policiamento havia sido tentado antes e não funcionara. A abordagem nova foi tratar a violência como sintoma de problemas mais profundos — e atacar esses problemas diretamente.

O que foi feito

O programa "Bom Jardim: Território pela Paz" combinou várias frentes simultâneas. Na segurança, houve aumento do policiamento comunitário — policiais que conhecem os moradores pelo nome, que participam de reuniões de bairro, que são vistos como parte da comunidade, não como força de ocupação.

Na educação, foram criadas escolas de tempo integral com atividades extracurriculares que ocupam o tempo livre dos jovens. Na cultura, foram construídos centros culturais, quadras esportivas e espaços de convivência. Na economia, foram criados programas de microcrédito e capacitação profissional.

"A violência diminuiu quando os jovens tiveram alternativas. Quando havia um lugar para ir, algo para fazer, uma perspectiva de futuro. Não foi a polícia que resolveu — foi o conjunto."
— Dona Francisca, 58 anos, moradora do Bom Jardim há 30 anos

O que os números mostram

Entre 2010 e 2024, a taxa de homicídios caiu de 120 para 72 por 100 mil habitantes — uma redução de 40%. O número de jovens matriculados em atividades extracurriculares triplicou. A taxa de desemprego no bairro caiu de 28% para 18%. O número de estabelecimentos comerciais formais cresceu 65%.

O que pode ser replicado

O modelo do Bom Jardim não é uma receita pronta — cada bairro tem suas especificidades. Mas alguns elementos parecem transferíveis: a abordagem integrada (segurança + educação + cultura + economia), a continuidade de política pública além de um mandato, e a participação comunitária genuína no diagnóstico e na implementação.

Outras cidades brasileiras já estão estudando o modelo. O Bom Jardim, que por décadas foi citado como exemplo do que não funciona, agora é citado como exemplo do que pode funcionar.

Editora
Ana Beatriz Fontes
Jornalista com 12 anos de experiência em cobertura de políticas públicas e desenvolvimento social.